
Umas vezes há limonadas.
Outras vezes não há.
Até já!


Uma vez um homem disse-me assim: “gostas de mim”.
Isso foi dizer, não foi perguntar.
E eu disse: “tenho de pensar.”
Não foi nada de especial.
Uma vez, uma mulher aproximou-se, beijou-me e disse: “gosto de ti?”
Devia dizer em vez de perguntar.
Eu disse: “vai-te lixar.”
Mas acabei por a abraçar.
Depois, dançámos um no corpo do outro… fomos homem e mulher, cada um na sua vez.
“Primeiro eu!”, disse ela.
Ela queria ser a parte rude.
E eu fui mulher enquanto pude.
Depois, não aguentei. Cansei. Chorei.
Disse-lhe: “agora és tua a parte que sente. Deixa-me ser a parte que mente.”
Ela sorriu para mim e disse-me assim: “ambos mentimos porque ambos sentimos.”
E deu-me a mão como se não houvesse outro jeito de dizer que me dava o coração.
Eu fui homem na minha vez sem lembrar o que ela me fez quando foi homem na sua vez.
Então, eu fiz-lhe também como se ela não significasse ninguém.
Quando voltei a ser a parte que sentia sofri com o que lhe fazia.
Olhámo-nos a meio da troca dos nossos corpos e fomos o rosto um do outro.
Fomos o ser.
Um e nenhum.
E voltámos a ser.
Uma e nenhuma.





“Vá lá! Vá lá!”
A princesa (não muito esperta, diga-se de passagem) foi na cantiga do batráquio reguila.
“Vem cá! Vem cá!”
O sapo esbugalhou os olhos e encheu o papo de ar.
“Agacha-te tu, que vais ganhar um príncipe!”
A princesa (burrinha, relembre-se) inclinou-se e fez biquinho.
“Toma lá, meu lindo sapinho!”
O sapo fez poing com as pernas e pisgou-se com o beijo para longe.
“Mais um que já cá canta!”
A princesa (claramente idiota) ficou a olhar para o cogumelo.
“Oh! Isso não vale! Batota!”
O sapo pulou no charco, a gabar-se do que aconteceu.
“Não há beijoqueiro como eu!”
A princesa (parva quanto baste) não sabia que os sapos não são príncipes.
“Em outra não volto a cair, não senhora!”
O sapo, cheio de vaidade, que afinal era maldade, continuou a espalhar a sua fama.
“Há cada princesa cegueta! Caem todas na mesma treta!”
A princesa (ui! burrinha, burrinha!) viu um príncipe todo jeitoso.
“Oh! Este sim! Não é um sapo horroroso!”
O sapo, já alapado num cogumelo ali perto, apreciou aquele encontro.
“Princesas! Não aprendem, e pronto!”
A princesa (pronto, tolinha) era mesmo muito burrinha.
“Este, vou agarrá-lo antes de beijá-lo!”
O sapo quase rebentou de tanto rir.
“Um sapo não deixa de ser sapo, mesmo depois de se vestir.”
A princesa (que já cansa com tanta palermice) não ligou para o que sapo disse.
“Oh! afinal, debaixo de tanto trapo, não passava de mais um sapo!”









